Ele assina os seus emails se dizendo “redator publicitário, músico e entusiasta do profano” e há cerca de 5 anos deixou Maceió (AL), onde passou sua adolescência e começo da juventude, para morar primeiro em Campinas (SP), onde foi trabalhar em uma agência de publicidade, e depois em São Paulo capital.
Originalmente de Londrina, Paraná, Leo Trindade é daqueles caras que tem um bom papo, que fala muito de música mas que também se empolga falando de literatura, cinema e de suas aventuras pela noite. Primeiro foi vocalista e guitarrista da banda alagoana 32 Dentes, que teve uma boa repercussão enquanto esteve em atividade, por volta de 2002 a 2004. Depois formou a banda Estandarte que foi encerrada quando Léo foi para Campinas.
Paralelo a Estandarte ele teve seu projeto solo, o Moderato, onde mostra suas composições mais intimistas, em um esquema gravado em casa, que pode ser ouvida no endereço: www.soundcloud.com/moderato , projeto esse que continua ainda sendo levado adiante.
A característica voz de Léo pode ser ouvida também no primeiro cd da banda alagoana Gato Zarolho (www.myspace.com/gatozarolho) onde ele faz um dueto na canção de sua autoria “Samba Safado prum Dia Triste” com o vocalista da banda, Marcelo.
Na entrevista a seguir Léo fala um pouco da sua relação com os livros, de como um dia eles o afastaram das amizades e de como mais tarde ampliaram seu leque de amigos, e defende que a melhor maneira de começar a ler é não ter critérios nem preconceitos. Confere aê! :
(Bruno Jaborandy) Me conta um pouco de como começou sua relação com a literatura. Primeiro vieram os livros infantis ou os gibis?
(Léo Trindade) Acredito que os livros vieram primeiro, mas tenho lembranças de ler quadrinhos aos 5 anos. Sempre recebi incentivo à leitura em casa. Minha família era rígida em relação a dar presente fora das datas comerciais, mas nunca me negavam livros. Eu tinha uma coleção enorme de livros infanto-juvenis que acabaram doados para primos e outras crianças da família. Quanto aos gibis, eu era louco pelas coisas do Ziraldo. Menino Maluquinho e A Turma do Pererê fizeram a minha cabeça até a editora responsável extinguir os títulos…
(BJ) Qual foi o primeiro livro “de verdade” que você leu? Que tipo de literatura te atraía na adolescência?
(LT) Eu lia os livros da “biblioteca” de casa. Não existia muito critério. Alguém me indicava uma leitura e eu investia nos livros. Eu ainda tinha uma relação forte com os quadrinhos na adolescência – como tenho até hoje. Pra ser bem sincero, o primeiro grande livro que li foi um livrinho que eu pegava toda semana na biblioteca do colégio. O título era algo como “O Mundo de Nicolau”, a memória não me permite muito, mas me lembro de como aquilo mexia comigo. Era basicamente sobre um personagem que via o mundo de uma forma diferente, criativa, que agia fora dos padrões. Aquilo instigava muito a minha imaginação, mexia muito comigo. Eu nunca gostei de fazer as coisas como todo mundo, tinha até dificuldades de ter amigos na escola por não me adaptar. A culpa disso tudo era do Nicolau. Mas valeu a pena.
(BJ) Sobre as letras de suas músicas. O quanto você acha que tem de literatura ali, o quanto do que você leu vai pras suas letras?
(LT)Volta e meia me pego fazendo citações a coisas que li. Às vezes, um verso de um poema ou alguma frase que li fica na minha cabeça e acaba compondo alguma letra. Acho que algumas vezes eu mudo o contexto dos textos originais ao meu gosto, o que é um pouco de sacanagem com o autor original, mas é uma possibilidade de leitura. Eu não cheguei a registrar nenhuma canção minha com citações à textos literários, mas é uma coisa muito presente. Às vezes, isso fica tão diluído que eu acabo me esquecendo de onde veio a ideia original. Acaba fazendo parte da minha referência pessoal, como deve funcionar pra muitas pessoas. É algo bem natural e orgânico. Só as referências diretas são propositais. Nessas viagens, eu me lembro de uma música com versos do Gil Vicente (?!) e do Manuel Bandeira. Mas, ei, eu não me considero cabeçudo.
(BJ) Um tempo desse você era bem empolgado com os escritores brasileiros mais novos, essa empolgação continua?
Como muitas pessoas que gostam de escrever e assistiram ao nascimento dos blogs e o surgimento dos escritores que deles saíram, eu busquei conhecer essa nova safra. Eu li mais coisas que me indicaram do que coisas que procurei sozinho. Eu fazia Letras e estava muito envolvido com grandes escritores, não era exatamente uma fase em que eu lidava bem com textos atuais, mas eu não estava afim de ficar alheio. Do pouco que li, nenhum escritor “vingou”. Não no sentido editorial, acho que a maioria se mantém lançando livros. Foi modinha.
(BJ) Você acha que alguém vai querer ler um livro por ouvir alguma música ou vice-versa?
(LT)Não é qualquer música que cria essa possibilidade. Acho que poucos artistas fazem esse tipo de ponte pro fã. A única coisa que me vem à cabeça é Engenheiros do “Havaí”. O Gessynger adora encher as músicas de citações de autores diversos. Lembro que meus amigos fãs da banda liam tudo o que ele citava. Então a resposta da pergunta é sim, né? E eu duvido que o Chico Buarque seria tão lido se não fosse sua carreira musical. São dois casos em que a música é ponte pra literatura. Acho que o inverso disso acontece muito na literatura “pop”. Autores que adoram citar bandas e músicas acabam influenciando leitores a procura-las. Essas são formas bem direcionadas, balas com alvo certo. Encarar uma obra musical ou literária e fazer uma ponte mais livre entre os dois mundos me parece uma viagem mais longa.
(BJ) Qual livro sobre música (seja ele biografia ou outro) você mais curtiu ler?
(LT) Não me interesso por biografias, quase tudo o que sei sobre bandas li em matérias de revistas e sites – o wikipedia taí pra isso. Mas existe uma exceção digna de nota. Uma vez eu achei em casa um livro assustadoramente intitulado “O Pensamento Vivo”. Era uma séria com várias personalidades, tipo Gandhi, Einstein, sei lá. E tinha esse exemplar com o “pensamento vivo” do defunto John Lennon. E naquela edição tosquíssima tinha a famosa entrevista do Lennon pra Rolling Stone. Não sei nem se os caras tinham os direitos pra publicar aquilo. Enfim, eu nem gostava de Beatles na época, o livro ajudou a desmistificar uma porção de coisas. Hoje, gosto muito de Beatles e esse livro tem um lugar especial na minha relação com a banda. Me ajudou a não ser um fã cuzão.
(BJ) Dá pra citar 5 livros que realmente fizeram parte da sua vida?
(LT) Coisas que me marcaram através do tempo e que são super acessíveis:
- Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
- O Amor Nos Tempos do Cólera – Gabriel Garcia Marquez
- Angústia – Graciliano Ramos
- Sayonara, Gangsters – Genichiro Takahashi
- Malagueta, Perus e Bacanaço – João Antônio
(BJ) Qual conselho você daria para alguém que está começando a compor?
(LT) Peque pela falta de critério. Esse é o único momento em que você pode fazer isso. Eu devo ter feito 100 músicas antes de fazer algo que achasse que estivesse bom para mim. O compositor precisa achar sua voz, o que não é fácil, a gente meio que está sempre procurando essa tal identidade própria. Honestidade é sempre bem vinda. Música é uma das coisas mais fáceis e difíceis de se fazer que existe. Qualquer 3 acordes faz uma canção, mas nenhuma canção se sustenta sem substância. Tem que ter verdade, tesão real naquilo que se faz. Eu ainda procuro o meu – e vou encontrar.
(BJ) Aquele projeto de escrever um livro em prosa poética ainda está sendo colocado em prática? Eu e o Diabo?
(LT)Engavetado como tantos outros projetos. Acho que literatura demanda uma boa quantidade de trabalho e amadurecimento de uma porção de coisas pra se realizar. No meu caso, a falta de pressa com a coisa é dominante. Tenho amigos que são capazes de enxergar a estrutura ou a falta dela pra por a coisa toda no papel. Esse momento ainda não chegou pra mim. Pode ser que chegue, pode ser que não. Quem sabe? A graça é essa, se rolar, rolou.
(BJ) Que tal voltar com um blog um dia? É uma possibilidade?
(LT) O www.ordinario.blogger.com.br realmente foi pro saco depois de 6, 7 anos. Fiz algumas outras experimentações. Recentemente fiz o www.dentesquebrados.wordpress.com que anda entregue ao deus dará. Tenho me dedicado à música e a escrita só aparece na hora de fazer letras. Também tenho um projeto para uma história em quadrinhos pra esse ano. Acho que os quadrinhos oferecem um campo de linguagem que a literatura não tem me oferecido ultimamente, ainda há muito pra explorar e transgredir no formato do gibi.
