
Distopia. Segundo o dicionário Houaiss significa “a localização anômala de um órgão”. É também o nome da canção que abre o álbum “A Tradicional Família Mineira”, da banda mineira Colorido Artificialmente, lançado em 2009. A banda é formada pelos músicos João Guilherme Dayrell (Guitarra e Voz) Manuel Horta (Guitarra), Bruno Faleiro (baixo) e Fernando Monteiro (Bateria). No segundo verso da música um diálogo é travado e a palavra distopia é lançada:
“-O que eu vejo é um mundo sem nossas mãos
- O que eu vejo é o que você ainda vai ver
Ela secou com um riso pálido o meu jardim
- Uma distopia tão clichê e vazia assim”
O que será que o compositor quis dizer com tal palavra? Esse é um só dos mistérios do disco. São letras em tom confessional, que falam de amores que terminam, de viagens e da sensação de voltar pra casa, de amadurecimento e da morte, tanto como metáfora quanto literalmente. É sempre bom ver bandas com a coragem de se expressar em português, de encaixar o idioma em um estilo de música criado por bandas que se expressam em inglês. É sobre esses e outros assuntos que o vocalista, guitarrista, e principal compositor da banda, João Guilherme Dayrel fala nessa entrevista que fiz com ele por email:
BJ – Primeiro gostaria que você fizesse uma pequena biografia sobre a banda. Há quanto tempos vocês estão juntos? Houve alguma alteração de integrantes na formação da banda?
JG- O Colorido surgiu se não me engano no final de 2006. Eu e o Bruno nos conhecíamos da faculdade de jornalismo e resolvemos nos juntar para fazer um rock autoral. Um baterista se juntou a nós, e logo depois, por intermédio de uma amiga, conheci o Manuel e o convidei pra tocar com a gente. Esse primeiro baterista deixou a banda e também através de um amigo conheci o Fernando (Feijão) que se juntou a nós. Fizemos uma gravação mais caseira em 2007 e disponibilizamos Vai Ver e 1948 na internet, e só agora, em 2009, conseguimos lançar nosso primeiro CD – A Tradicional Família Mineira. Neste tempo, fizemos diversos shows, alguns fora de BH.
BJ-Como se organiza a cena do rock alternativo em Minas Gerais? Ela é muito presente? Quais são as principais dificuldades?
JG-Eu não sei como ela se organiza, mas acho que está crescendo. E perceptível, à medida que os anos passam a presença em maior número de festivais dedicados à música independente, e mais especificamente ao rock alternativo. No entanto, se levarmos em consideração que BH é a terceira maior cidade do país, às vezes ficamos com a impressão de que a coisa está muito, mas muito longe do ideal. As causas? Eu não sei. Muitos acusam desinteresse do público, corporativismo etc etc. Eu sinceramente não sei, acho que essas coisas devem existir pois elas existem quase todos os lugares, em maior ou menor grau. Mas acusá-las, a meu ver, não muda muita coisa. O que importa é que hoje você já tem diversos festivais, o que não era tão perceptível há uns anos atrás. E quando as pessoas percebem que as coisas estão em movimento elas se interessam mais, comparecem mais aos eventos. Enfim, tudo tem crescido muito. Eu não me arrisco a fazer uma previsão, mas acho que dentro de pouco tempo BH certamente será uma das capitais uma das maiores cenas independentes do Brasil.
BJ-A maioria das composições é de sua autoria. Eu gostaria de saber como é o seu processo criativo, se você cria as músicas em casa ou todos da banda participam na criação?
JG-Olhando para as 8 musicas que estão no CD, poderia te dizer que eu geralmente levo as letras prontas, harmonia e melodia já encaminhadas. Quando isto é levado pra banda, as músicas são arranjadas e alteradas por todos, que montam e desmontam (e apagam muita coisa também heheh). Babel, no entanto, foi uma música composta pelo Manuel, que foi trazida e rearranjada pelo Colorido e recebeu, posteriormente, uma letra e melodia de voz minhas. O Estrangeiro, a letra foi composta por mim e pelo Bruno. Como o processo é desta forma, as músicas são do Colorido Artificialmente e as letras assinadas por mim, até porque algumas são de caráter bastante pessoal.
BJ-Quais são os próximos planos para a banda? Fazer turnê, se inscrever em festivais independentes?
JG-Cara, no momento eu estou morando em Florianópolis e o Manuel está de mudança para São Paulo. Vamos, nos próximos meses, liberar um clipe. O Colorido não acabou: que isto fique claro. Mas por enquanto eu não posso te dizer muita coisa. É provável que aconteçam shows no final do ano e outras coisas que estamos olhando. Mas está tudo dependendo do desenrolar de coisas que estão no nosso âmbito pessoal e estão bastante indefinidas.
BJ-Você costuma ir a muitos shows de rock ou de outros estilos no seu estado?
JG-Sim, muito. Estava em BH no mês de julho e pude conferir várias bandas, entre elas, o Black Drawing Chalks, de Goiania salve o engano, que é bem legal. Fora do rock, estamos sempre atentos para coisas que vão da música brasileira à erudita. Tem um cara em BH que se chama Rafael Macedo, acabou de lançar um disco chamado Quase em Silêncio. Pra quem curte o estilo, é altamente recomendado.
BJ – A influência da banda norte-americana … And you will know us By The Trail of Dead se mostra bastante presente, gostaria que você falasse sobre as outras influências da banda.
JG-Cara, nós temos uma relação meio particular com as influências. Quando formamos a banda, obviamente sabíamos por quais terrenos musicais os integrantes circulavam, mas nós não elegemos algumas bandas e dissemos: nosso som vai ser tipo isso. Na verdade, a medida que as composições foram tomando forma é que nós paramos pra ouvir e dizer para que caminho aquilo estava indo. Eu vou citar agora algumas bandas que ouvimos desde sempre e que estamos ouvindo agora: Jaga Jazzist, Jeff Bucley, Radiohead, Sonic Youth, Dinossaur Jr, This Town Need Guns, Sigur Rós, Oceansize, As Tall as Lions, Wilco, Faraquet, Toe, Ludovic, Karate, Jose Gonzales, Colossal, Baden Powell, Caetano Veloso. Etc etc etc
BJ-De onde veio o nome Colorido Artificialmente?
JG-Não existe motivo específico. Como eu falei em resposta à primeira pergunta, havíamos gravado duas músicas demos e as colocamos no myspace. Lembro-me, que logo antes de colocá-las na internet estávamos debatendo na casa do Manuel: pô, pra se fazer uma página e tudo mais a banda precisa de um nome! Partiu do Manuel, eu estranhei, o Fernando mais ainda e o Bruno gostou. No fim acatamos: hoje eu gosto muito desse nome, o Fernando também.
BJ- O produtor musical Miranda afirma que hoje em dia a estratégia que as bandas podem fazer é criar uma relação próxima a amizade com seus fãs. Qual sua impressão sobre esse comentário?
JG-Não sei, mas me parece que o Miranda, nesta frase, está se referindo a um corpo a corpo mesmo. A coisa de você fazer show depois ir lá pra tentar vender seu Cd e conversar com as pessoas. Eu não sei se isso é uma estratégia mais eficaz ou se é o que resta hoje a um músico fazer. Não estou dizendo que é ruim: não, é o mais prazeroso, sem dúvidas. O que estou falando é que eu não tenho certeza se existe espaço para aquele músico que não quer colocar a mão na massa, correr atrás, conversar com as pessoas e tals. Agora, se ele está falando mais sobre a amizade mesmo, eu acho interessante. Quando você faz um show você fica exposto, para o bem ou para o mal. De qualquer forma, isto faz com que as pessoas venham falar com você, o que é sempre bom e rende ótimas amizades.
O cd da Colorido Artificialmente pode ser baixado pelo endereço: http://www.mediafire.com/?idyownygzhz www.myspace.com/coloridoartificialmente
Bruno Jaborandy
brunojaborandy@gmail.com