
foto por Marcelo Stammer - www.stammerfotografia.wordpress.com
Giancarlo Ruffato é um músico de 29 anos que habita a cidade de Curitiba, Paraná, e, desde 2005, quando saiu o disco “Lo-Fi Dreams” vem lançando seus trabalhos de uma forma independente.
Pelo teor literário de seus escritos e pelas ótimas respostas que ele deu nessa entrevista realizada por e-mail, ele foi o escolhido para ser o primeiro personagem da série de perfis “O Que eu Leio e o Que eu Faço” do blog Do Bruno.
O objetivo da coluna é desvendar os hábitos literários de músicos independentes brasileiros, com uma certa preferência por integrantes de bandas que compõem em português, e entender a influência da literatura na música e vice-versa. Nas próximas edições teremos entrevistas com Beto Cupertino (vocalista e guitarrista da banda goiana Violins) e com Felipe Ricotta.
Optando por compor em português o cantor/compositor paranaense faz da internet uma plataforma de divulgação do seu som e dos seus escritos. Formado em Publicidade ele concilia essa atividade de músico com seu emprego no Sesc Paraná, na área de comunicação e produção cultural. Suas palavras podem ser encontradas em seu blog http://giancarlorufatto.blogspot.com , onde seus discos podem ser downloadeados gratuitamente, incluindo o último trabalho, chamado “Machismo”, segundo o autor “uma piada sobre o total jeito do homem para com relacionamentos”.
Em longas respostas Giancarlo nos conta um pouco do que curte em se tratando de literatura. Vou logo falando que as referências são muitas, então prepare-se para anotar as obras que parecerem interessantes segunda a visão do músico, ok?
Lá vai:
(Bruno Jaborandy) Me fale um pouco de como começou seu contato com a literatura. Quem te influenciou mais? Os colégios onde você estudou tiveram alguma influência?
( Giancarlo Ruffato ) Coleção Vaga-lume é literatura, certo? Eu comecei lendo a coleção dos irmãos Grimm que ganhei com 4, 5 anos, depois Coleção Serelepe e finalmente a Vaga-lume. Vim de uma família de caminhoneiros, ninguém tinha (ou tem) o habito da leitura em casa.
Eu ganhei uns pontos a mais por que meus pais passavam muito tempo fora trabalhando e eu brincava muito tempo sozinho, aí a imaginação era a minha literatura – isso e (os gibis) da Turma da Mônica.
O primeiro livro de “verdade” foi “O Guarani” do (José de) Alencar, mas só gostei porque havia os Aimorés na historia e eles comiam gente.
(BJ) Antes de ser compositor você escrevia poemas? A partir de que idade você começou a compor?
(GR) Não lembro de ter escrito antes de escrever musicas, mas acho que é porque eu morria de medo que isso viesse a publico. Minha mãe tem um recorte de jornal da cidade (Coronel Vivida, Paraná) com um conto sobre o dia dos pais que escrevi aos 9 anos.
Minha família guardou cadernos, essas coisas de criança, mas eu preferia desenhar a escrever. Só aos 15 anos eu passei a escrever musicas e aos 17/18 que eu cantei em público uma delas. Eu tenho um problema na mão esquerda que impede executar alguns movimentos no violão, então, era mais fácil do que tocar a música dos outros. As letras sempre saiam de historinhas com vinte, trinta linhas, isso não mudou desde então. A influencia da Legião (Urbana) era grande, mas só de um disco (inteiro): “O descobrimento do Brasil” e das baladinhas do “V”.
(BJ) Algum poeta é referência para as letras das suas músicas?
(GR) Poemas, eu não sei. Sempre fui do conto, da prosa, de Nick Hornby e de Caio Fernando Abreu, mas se perguntarem, digo que não gosto mais. Teve uma época que eu li um monte de William Faulkner, F. Scott Fitzgerald, Truman Capote e Julio Cortázar, mas acho que no fundo li apenas para impressionar garotas e ocupar o tempo que me sobrava sentado na biblioteca publica. Sempre gostei mais da imagem que a leitura faz, tipo filme, cria o começo e o fim da cena e tenta pensar no dialogo, é o que minha música é, um monte de imagem.
(BJ) Suas letras soam bem confessionais. Existe algum autor nessa mesma linha que você curte ler, seja poesia ou prosa?
(GR) Minhas letras são confessionais, mas prefiro me ver como um confessionário. Em grande parte do tempo, é a vida dos outros que estou cantando. Prefiro pensar que minha vida se parece mais como as musicas da banda Mordida, aqui de Curitiba. Eu gosto de gente que é capaz de situar o leitor ao local onde a historia passa, Capote é assim na maior parte do tempo – pena que tem gente que o trata como literatura menor, gente que só leu A sangue frio. Tem aquele livro “menor” do J.D. Sallinger, “Seymour, uma apresentação”, “Suave é a Noite” do Fitzgerald e “Paris é uma Festa” do Ernest Hemingway. Gosto de gente que mistura ficção, vida real e pimenta nos olhos dos outros.
(BJ) Você já se aventurou na prosa alguma vez?
(GR) No mesmo período de “trevas” da vida, em que eu passava muito tempo lendo na biblioteca publica, eu inventei de escrever bastante. Está tudo no meu blog, tem muita coisa ruim, muita coisa que romantiza a fase ruim e um continho do Mojobooks, feito com base em “Hghway 61 revisited” de Dylan (pode ser encontrado para ler em http://www.mojobooks.com.br/mojo_inteira.php?idm=113). O que eu gosto de escrever de verdade é falar sobre a infância, romantiza-la até torná-la um lugar bonito de recordar.
(BJ) Sobre os títulos das suas músicas, exista alguma banda que você admira pelos títulos de suas canções?
(GR) Banda? Não sei, os Stones tinham títulos ótimos, mas eram todos roubados de blues anteriores a existência deles. No Brasil, eu gosto dos títulos do Lestics, do Beto Só – artistas com o qual eu e minha banda (Hotel Avenida) temos uma ligação direta.
Bruce Springsteen diz que a medida que se aproximava do povão, sem querer ele também abandonava os títulos enigmáticos dos primeiros discos para títulos que qualquer pessoa poderia entender. Gosto dos títulos do Dylan, há até uma teoria furada – porem divertida que diz que se você não conhece nada de Dylan, sempre comece pelas musicas com títulos mais longos, são sempre as melhores. Acho que títulos longos só existem para duas coisas: tentar explicar a letra em uma frase ou fingir uma sofisticação – isso ou aquilo.
(BJ) Você sente que a música pode ser uma maneira de influenciar o jovem a ler?
(GR) Será? Eu procurava saber quem meus artistas favoritos citavam nas entrevistas, mas isso era em uma época que uma entrevista da Bizz (revista brasileira dedicada a música e comportamento, que foi publicada, com alguns intervalos, entre 1985 e 2007) que me acompanhava por 40 dias e era lida 4, 5 vezes.
Hoje eu leio mais quadrinhos que livros e, trabalhando num centro cultural com uma biblioteca cheia de itens de artes, vejo que os livros que mais saem são aqueles que se amontoam em qualquer megastore do Brasil. É engraçado perceber a evolução humana, que algumas pessoas que pegaram um “Crepúsculo” há 2, 3 meses atrás, hoje estão levando um “A Hora da Estrela”, um Clarisse Lispector hoje. Pode ser o inicio de um leitor – como pode ser alguém querendo saber quem era a tal Clarisse que estava no treding topics do twitter.
(BJ) Que livros você indicaria para alguém que curte o seu som? Quais foram os livros que mais marcaram a tua vida?
(GR)Alta Fidelidade, do Nicky Hornby, para o bem ou para o mal, mudou muita gente e eu me sinto um idiota de dizer que ainda acho uma leitura legal, mesmo que não seja necessariamente uma literatura rica, é leitura pra meninos. Foi o meu crepúsculo, meu Harry Potter, tenho o livro, o Dvd, vi a peça – “A vida é feita de som e furia” e estou com o ingresso na mão pra estréia da continuação “Trilhas sonoras de amor perdidas”, em abril.
Tem um livro que está nos meus favoritos – “Dentro do Rock” – (Writen in Soul, nome original), um livro lançado nos anos 80 que compila uma série de entrevistas com compositores da música pop (da época). Esse livro tenta entender o processo da composição de gente como Dylan, Van morrison, Springsteen, Bono Vox, etc. Vale para quem é fã de canção.
(BJ) Sobre as adaptações da literatura para o cinema. Qual a adaptação que você mais achou massa? Teve algum que você achou uma bosta?
Aparentemente, no cinema, tudo é adaptação, até Cobra – aquele com o Stallone. O pior deveria ser aquele Peter Pan com a Julia Roberts e o Robin Williams (Hook), mas gostava quando era criança, então, prefiro dizer que é “O curioso caso de Benjamin Button” do Fitzgerald, transformaram o conto na historia de um bundão que nasceu ao contrario e viu a vida passar.
O melhor nunca foi feito – sabe lá porque, mas eu queria muito um filme adaptado de “Ouvindo as musas” texto do Capote que narra a viagem do musical “Porgy and Bess”, dos irmãos Gershwin, até a União soviética no auge da guerra fria. Imagine, década de 50 e uma peça cheia de emblemas americanos, personagens principais negros, e em Leningrado. É roteiro para Oscar fácil. Está lá no “Os cães ladram”, pra mim o melhor do Capote.